Futebol
O que antes era “coisa de homem”, agora está cada vez mais atraindo o público feminino. Bandeirinhas, árbitras, e até jogadoras! A mulher, como sempre, vem conquistando seu espaço, claro que ainda rola certo preconceito, ainda existem mulheres que não suportam futebol. Mas é impossível uma coisa agradar a todos. Os estádios contam cada vez mais com a presença feminina, e apesar dos que ainda consideram esse local impróprio, esse número só tende a aumentar.
BRUNA...
EU AMO O BOTAFOGO, MAS ELE ME ODEIA!
Tentei liga pra Cris diversas vezes, mas ela estava estudando para o simulado e mal conversamos. A Débora estava ocupada cuidando da irmã de cinco anos, e portanto não poderia sair comigo. Eu estava a fim de fazer alguma coisa diferente, ir pra um lugar diferente, mas sozinha não tinha graça.
Era o dia de um jogo entre Botafogo e Flamengo, mas meu pai estava sem dinheiro pra comprar o ingresso. Botafoguense roxa como sou, detesto assistir os jogos do meu time do coração pela TV. Pelo jeito, eu não tinha opção.
O telefone tocou.
- Oi Bruna! – ouvi o som estridente da voz de Jess.
- Você não ia pra Rio das Ostras esse fim de semana? – perguntei.
- Eu ia, mas meu pai marcou pra semana que vem.
- Que pena, o Léo ia junto?
- Ia. O pior que você não sabe por que ele desmarcou.
- Por quê?
- Léo comprou os ingressos pro jogo de hoje. Ele e meu pai estão amicíssimos!
Ela disse com certo sarcasmo.
- Achei que isso era bom, você morria de medo de que eles não se dessem bem.
- O Léo quando vem aqui, fala mais de Flamengo do que de mim.
- I… já tá em crise assim?
- Não é nada disso! O Léo tá dando mais atenção pro meu pai que pra mim.
- Não acredito! Você tá com ciúme do seu pai?
- Claro que não! Mas voltando ao assunto, resumindo, eles compraram quatro ingressos pro jogo.
- Porque quatro?
- Um amigo do meu pai ia, mas parece que a esposa não deixou. Então… tem um ingresso sobrando, eu conversei com meu pai e ele me deixou dar pra você.
- Sério?! Jura amiga?! Poxa, você ligou na hora certa, estava louca pra assistir esse jogo, – me lembrei de um detalhe importantíssimo – opa! Cartão vermelho na parada! Quando você disse quatro ingressos, são pra arquibancada…
- Do Flamengo.
- Ai, Jess!
- O que você queria? Que meu pai, flamenguista, comprasse ingresso pra arquibancada do Botafogo? Faça-me um favor, Bruna! E não reclama, porque você já tá no lucro.
- Tá né… o que eu não faço pra ver o Fogão jogar…
- Olha, eu tenho uma camisa oficial sobrando, se você quiser…
- Ah, não! Não teste minha paciência, Jéssica Mendonça!
- Ok, não está mais aqui quem falou. Só por favor, não vá com a do Botafogo, a não ser que queira voltar em pedacinhos pra casa.
- Ê favela!
- Favela nada! Se eu fosse com você na arquibancada do Botafogo com a camisa do Flamengo, não voltaria pra casa inteira, to mentindo? Aff, mas eu preferia ficar em casa, tomar um chocolate quente e namorar um pouquinho.
- Você não curte muito futebol.
- Você curte até demais!
- Vou me arrumar, daqui a pouco apareço por aí pra irmos juntas.
Desliguei o telefone minutos depois. Coloquei (sim!) a blusa do Botafogo, mas por cima dela vesti um casaco preto, digamos que o dia não estava o estilo que costumamos chamar de quente. Meu cabelo já estava na cintura, não reparei que tinha crescido tão rápido desde o último corte.
Chegamos ao Maracanã. Nunca estive perto de tantos flamenguistas.
- Qual é Bruna? Tente se divertir! – Jess disse após dar um selinho em Léo.
- To achando que alguém aí vai virar flamenguista… - Léo debochou.
- Nem morta! – protestei.
- Prometo que quando você morrer vou estender uma bandeira do Flamengo no seu caixão, - ele continuou zoando. Jéssica lhe deu um tapa no ombro.
- Credo! Não fale isso!
- Eu to brincando, amor!
Ele se aproximou e a beijou novamente. Nunca fui uma boa “seguradora de vela”, e sinceramente, detestava ter que prestar a esse papel. Mas a Jess estava tão feliz com ele que algumas horinhas não iriam me matar.
Entramos no estádio, já estava lotado! A única coisa que eu não gosto em estádios, é a muvuca, gente suada, gente xingando, mas como eu não presto atenção nisso, deixei meus olhos fixos no campo.
- Mengão Olê! Olê! Olê! – um cara gritou logo atrás de mim.
- Uma vez Flamengo, sempre Flamengo! – o pai da Jess cantou.
- Flamengo sempre eu hei de ser! – Léo cantarolou junto com seu “sogro”.
Jéssica estava com a expressão frustrada.
- Eu é que devia estar assim. – falei.
- Não! Que saco! To me sentindo trocada por um time de futebol.
- Isso não é verdade! Você está se sentindo trocada pelo seu pai! – debochei.
- Engraçadinha! – ela riu sem a mínima vontade. Logo Léo a abraçou bem apertado, ela fez um pouco de birra, mas depois de alguns beijos já estava mansinha… mansinha…
Mantive os olhos fixos no campo. Aproximadamente aos quinze minutos de jogo um dos jogadores do flamengo chegou com a bola perto do gol, perto demais pro meu gosto. Fez um passe pra alguém que estava livre, eu já sabia o que iria acontecer.
- GOOOOOL! GOOOL!!!! – a torcida gritou em coro. Diferente de todos, continuei sentada. Até Jess se animou e comemorou junto com Léo, apesar de detestar futebol.
Ok! Um a zero aos quinze minutos eu poderia suportar. Fiquei tão concentrada que nem reparei quando algum imbecil, idiota, infeliz, tacou um ovo podre nas minhas costas. Tentei procurar o individuo com minha visão periférica, obviamente não tive sucesso.
- Eca! – falei como se eu tivesse chupado um limão bem azedo.
- Quem foi filho da mãe que fez isso? – Jess perguntou.
- Se eu descobrisse… - falei entre os dentes.
- Tira o casaco.
- Não dá…
- Por que? Tá sem blusa por baixo?
- Não… pelo contrário. To com a camisa mais bonita do mundo!
- Não acredito que você…
Confirmei com a cabeça mostrando um pedacinho da blusa embaixo do casaco.
- É um hábito.
- Então acostume-se com o cheiro de ovo, idiota!
Revirei os olhos e continuei assistindo ao jogo. Logo, mas um gol do flamengo. Comecei a ficar fora do controle e a sussurrar alguns palavrões sempre que o Botafogo errava a entrada do gol.
- Vai! - falei sem pensar em abaixar o tom da minha voz. O Botafogo estava a um passo de fazer o gol. Jéssica me olhou com repreensão, mas pedir silêncio era exigir demais do meu autocontrole. O atacante fez um passe longo e outro jogador chutou à gol. Finalmente! – GOOOL! GOOOL!!!! – levantei e tirei o casaco, deixando a camisa à mostra. Um bandeirinha marcou o impedimento, fiquei chocada – Que?! Como assim?! Tá maluco? Juiz ladrão porrada é solução! Juiz ladraaaã...
Abaixei o tom de voz parando no meio da palavra. Pude contar pelo menos vinte pares de olhos me encarando. Coloquei os braços na frente do corpo, tentando esconder a camisa, não por vergonha do símbolo que carregava no peito, mas sim por uma autodefesa. Dois homens de pelo menos trinta anos se levantaram e vieram na minha direção. Sentei e apenas cobri meu corpo com o casaco sujo de ovo.
- Seu lugar não é aqui, garota! – o mais moreno disse com a voz marrenta.
O pai da Jess se colocou entre nós.
- Foi mal aí, parceiro! – ele se desculpou – Ela tá com agente – ele fez sinal para Jess e Léo, ambos com a camisa do Flamengo – Leve na boa, prometo que vou mantê-la com a boca bem fechada.
- É bom mesmo, se não eu não me responsabilizo pela reação da galera.
Ele me olhou com certo desprezo, mas não me botou medo, continuei o encarando com deboche até que Jess me cutucou.
- Não provoque, Bruna Rangel! – ela sussurrou e eu desviei o olhar.
- Tá tudo bem, tudo bem… é só uma garota! Certo? – ele falou como se conhecesse cada torcedor ao nosso redor, por algum motivo, eles o obedeceram.
Não acreditei que Jess me levou a um lugar como esse. Tem flamenguista que tudo bem, mas outros… deixa pra lá. Sem ofensas pessoais. Fiquei com a boca fechada o resto da partida. O Flamengo fez mais um gol e eu fiquei revoltada, agora em silêncio, claro!
Quando voltamos pro carro, o transito estava infernal. Léo começou a rir.
- O que foi? – Jess perguntou.
- Você tem noção do quanto sua amiga teve sorte? Esses caras não costumam deixar pra depois, em qualquer torcida. A diferença é que era uma garota, mas de vez em quando nem as mais novas eles perdoam.
- O futebol mexe mesmo com as pessoas! – concluiu Jess.
- E ai, tio! – exclamei – Não me dar bronca? –perguntei, ele olhou rapidamente pra trás enquanto dirigia.
- Bruninha, seu time perdeu de lavada pro Mengão, você pagou o maior mico na frente da torcida e ainda está fedendo a ovo. Sinceramente, acho que não tem castigo melhor! – ele falou com entusiasmo. Léo e Jess riram.
- Vocês se acham mesmo muito engraçadinhos! Da próxima vez eu faço questão de comprar seus ingressos, mas vai ser pra arquibancada do Fogão! Com a camisa oficial.
- Nunca será! – eles debocharam.
- Veremos se eu não consigo…
Amizades verdadeiras
Existe coisa melhor que ser rodeada por amizades verdadeiras? Verdadeiras mesmo! Do tipo que troca confidências, que não suporta ficar um dia sem bater papo(nem que seja pelo telefone!) e que mooorre de saudade em apenas um fim de semana.
Não há nada melhor que a amizade, não há melhor que ter um ombro pra chorar, desabafar nos momentos deprês.
Amigos de verdade não se importam com as diferenças, não segurem padrões sociais, e aceitam o outro com seus defeitos e qualidades. Por que afinal, como dizem por aí, ninguém é perfeito!
Que minha opinião seja bem esclarecida. Garotas deveriam ser terminantemente proibidas de irem a locadora juntas, principalmente garotas com preferências tão distintas quanto nós.
- Filme de terror eu não assisto! - protestou Jess jogando a franja pra trás.
- Qual é o problema? - perguntei enquanto segurava a capa do filme em questão - Vai molhar o colchão se assistir?
Ela ignorou meu comentário.
- Na boa, prefiro um romance bem meloso e dramático. Com amores impossíveis e que claro, de preferência, o casal não morra no final.
- Eeeca, Jéssica! - Débora exclamou - Tudo menos isso! Sempre tem um casalzinho hiper apaixonado que não pode ficar junto por algum motivo. Mas no final, ou conseguem superar as barreiras ou fazem um pacto suicida.
- Nem todo romance se resume a "Romeu e Julieta", mas eu ainda prefiro o de terror! - Argumentei.
Cristina estava na sessão de comédia. Fomos até lá para saber a opinião dela sobre a discussão.
- Que tal "American Pie"? - ela sugeriu. Eu, Jéssica e Débora a olhamos com descrença.
- Quer trocar um romance super fofo por um filme de sacanagem?
- Não é de sacanagem, Jess! - Vociferou Cris.
- Fala sério! - tive que me intrometer - Se "American Pie" não é filme de sacanagem, o Jô Soares tem anorexia!
- Que saco, gente! Será que dá pra escolher logo? - Débora reclamou.
- Você tem alguma sugestão?
Jess perguntou em um tom de deboche enquanto - ainda! - olhava os DVDs de romance.
- Agente devia...
Débora parou no meio da frase. Percebemos que seu olhar estava fixo em algo ou alguém atrás de nós. Sem cerimônia, eu, Jess e Cris viramos nossas cabeças e pudemos ver três garotos entrando na locadora. O primeiro era moreno, tinha traços mexicanos e um estilo playboy. O segundo era alto, magro e tinha o cabelo espetado. Já o terceiro fazia mais a linha "skatista".
- O my good!
Jess exclamou sem se preocupar em regular a altura de sua voz. Cris lhe deu um tapa no ombro para que desviasse o olhar. De todas, Jess era a única que não podia paquerar, mas às vezes tinhamos que lembrá-la disso.
- Tá maluca? - perguntou Cristina.
- Qual o problema?
- Qual o problema, Jéssica Mendonça? - Cris perguntou ironicamente - Quer mesmo que eu responda em alto e bom som?
- Olha só... a santa....
- Não se faça de inocente! Como quer que o Léo te dê valor?
- O Léo é um idiota! Não sei porque ele ainda não me pediu em namoro. Como dizem por aí " Não deu assistência, perdeu pra concorrência".
- Mas ele vai pedir, isso é um fato. E você gosta dele.
Jess ficou com peso na consciência.
- Tá... eu sei. Mas esse moreninho...
Começamos a rir. O moreno estava à alguns metros de nós e tive certeza de que ouvira o comentário de Jéssica.
- Com licença. Será que você podia me ajudar a escolher? - o moreno perguntou enquanto se aproximava de Jess. Débora tentou prender o riso, e sua expressão angustiada não colaborou nem um pouco pra nossa tentativa de parecer centradas - Estou em dúvida entre um filme de ação ou um de terror bem assustador.
- Ação! - Jess respondeu sem pestanejar - Com certeza! Mas também depende, filme de ação policial já tá muito clichê.
- Porque tá muito clichê? - Cris quis saber - Eu adoro!
- Você gosta de qualquer porcaria.
- É verdade, Jess. Eu gosto de você!
- Ridícula!
- Calma, gente! Vocês vão acabar assustando o garoto, - Débora exclamou - entendi o que a Jess quis dizer, ação policial sempre o policial ou detetive só resolve o crime quando é afastado do caso, as explosões só acontecem em câmera lenta, o mocinho quase sempre é baleado, mas nunca morre no final.
- Eu nunca tinha pensado nisso, - admitiu o moreno.
- Não precisa. Vocês, garotos, nunca pensam muito mesmo. Deixe essa parte pra nós.
- A sua sorte é que eu adoro garotas espontâneas. Posso saber seu msn?
- Sabe qual é o problema? Mamãe me ensinou a não dar confiança pra estranhos.
- Ainda bem que eu só to pedindo o msn. Depois convenço sua mãe sobre a questão da confiança.
Débora pegou um panfleto da locadora e começou a escrever. Logo notei que nao era seu msn.
agenteseveporai@beijus
O garoto leu e fez uma cara, provavelmente nao quis parecer insistente. Minutos depois, ele e seus amigos saíram do estabelecimento.
- Porque você fez isso?! - Cris perguntou inconformada - Aquele não era seu msn.
- Fala sério! Tá na cara que ele é só mais um filhinho de papai que quer zoar. Sinceramente, não sou o tipo de garota que aceita isso.
- EU SOU! Gato desse jeito, pode ser filhinho de papai, de mamãe, de titia, de vovó...
Cris exclamou fazendo com que todas nós caíssemos na gargalhada. Ao fim de tudo, cada uma escolheu seu filme. Achamos que a discussão acabaria, mas ao chegarmos à casa de Jéssica, notamos que estávamos completamente enganadas.
- O de terror primeiro! - Ordenei.
- Não! American Pie primeiro!
- Não, Cris! Eu moro aqui, então tenho minhas prioridades. Vamos ver primeiro o de romance!
- Isso é abuso de poder! - Débora vociferou. - Noivas em guerra primeiro, pooor favor!
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
- Vocês estão sentindo esse cheiro? - perguntei - Jess, você deixou alguma coisa no microondas antes de saírmos?
- Deixei, mas eu coloquei no ajuste de tempo automático. Era pipoca.
- Quantos minutos você marcou?
- Sei lá, Bruna! Não me lembro. Acho que dez.
- QUE?! - gritamos em coro.
- Eu não sabia. Tenho preguiça de ler embalagens, às vezes queimo até miojo!
Fomos até a cozinha e jogamos a pipoca no lixo. Tivemos que abrir as janelas pois o cheiro estava insuportável.
- E agora? - Cristina perguntou, mas logo teve a resposta.
Começamos a fazer guerra de almofadas. Lição número um sobre assistir filme com as amigas: dificilmente alguém assiste. Algumas vezes a maioria dorme, outras vezes ficam conversando (O que foi o nosso caso!) até que foi bom pois evitou uma bela briga.
Horas depois ligamos pro disk pizza.
- Giro Poit, boa noite! - A atendente falou. Jess colocou no viva-voz. Perguntei que sabores estavam disponíveis para o valor em dinheiro que tinhámos. - Só temos mussarela, provolone, calabresa e frango com catupiry.
- Provolone!
- Mussarela!
- Calabresa!
- Frango com catupiry!
Gritamos ao mesmo tempo, cada uma com sua preferência. Nossos olhares se encontraram e começamos a gargalhar. Cristina apertou o botão e desligou o telefone.
- Querem saber? Tenho uma idéia bem melhor! Jessica, você pode ficar só olhando se quiser.
Jess mostrou a lingua, como uma criança de cinco anos.
Fomos até a cozinha. Estávamos convictas de que não sairia nada meramente comestível de lá. O mais importante é que juntas nossas diferenças se misturam. Nos tornamos todas iguais, todas amigas!